Senzu Coffee Roasters: Por dentro de uma torrefação Portuguesa

Quem me acompanha pelo Instagram do Coffee Blog sabe que estou “recém” mudada para Portugal, onde vim viver com minha família. Ao aterrissar no velho continente eu tinha uma missão especial: conhecer cafés para além da Starbucks. O mundo dos cafés especiais, que vocês já conhecem um pouco, aqui se chama cafés de especialidade. Sair de um país produtor de café que está surfando no alto da terceira onda (do café) para outro país que não produz, envolve bastante aprendizado e, claro, contatos. 

Em tempos de quarentena, eu buscava por negócios locais que entregassem cafés de especialidade em casa, foi então que me deparei com a Senzu Coffee Roasters. Uma torrefação portuguesa, localizada na cidade do Porto. Depois de receber ótimas recomendações de um amigo barista, investi em dois pacotinhos de café: um Rwanda e  outro Ethiopia – lavado e natural, respectivamente. Os dois têm pontuação acima de 85 na escala SCA e a torra super fresca garante um aroma inigualável aos grãos. 

Após a experiência de compra super positiva, tive a oportunidade de conhecer melhor o backstage da Senzu e numa parceria com eles, surgiu essa publicação que, dentre outras coisas, conta um pouco do mercado do café de especialidade em Portugal e como funciona uma torrefação. 

Porque Senzu?

O nome foi inspirado no desenho Dragon Ball, em que existe um feijão mágico que dá cura e devolve energia, esse feijão tem o nome de senzu. A torrefação Senzu começou há pouco mais de um ano, em abril de 2019. Mas a história do Diogo, que está à frente do negócio, começou muito antes nesse mundo do café. Seu pai vende “café comercial” há 40 anos e foi aí que despertou o interesse do Diogo pelo mundo cafeinado. Em 2015 ele entrou para a turma do Mestrado em Economia e Ciência do Café, único no mundo, ministrado pela Universidade de Trieste. Não demorou muito e em 2016 ele inaugurou a Luso Coffee Roasters, quando a onda do café de especialidade ainda não havia chegado por cá. 

Seu pioneirismo e know-how tornou viável também a criação da abcoffee, a primeira escola de café do Porto. Hoje a torrefação chama-se Senzu e divide o mesmo espaço que o coffee shop Bird of Passage, onde é possível comprar os seus cafés, também disponíveis no site. 

Cafés de especialidade em Portugal

Segundo Diogo, o mercado português de cafés de especialidade tem crescido, principalmente a partir de 2018. No entanto, é uma porcentagem ainda muito pequena, se comparado aos EUA vê-se a rondar os 20%, em Portugal talvez entre 1 ou 2%. 

“São 3 as razões deste crescimento: um aumento exponencial de turismo nos últimos anos, alguns deles são consumidores de café de especialidade e procuram quando viajam; portugueses que regressaram a Portugal e no estrangeiro tiveram contacto com café de especialidade e procuram pelo produto aqui; a última uma vaga de brasileiros que é um público que procura saber mais e interessado (ao contrário do português). Isto tudo aliado à economia estar melhor, certamente pelo menos durante os próximos meses não será mais assim devido a esta nova realidade que vivemos.” explica Diogo. 

O português e a terceira onda do café

Assim como no Brasil, o mundo dos cafés de especialidade exige um tanto de “educação” ao consumidor que vai experimentar o “novo”. Por esse motivo a primeira reação pode ser um pouco negativa. 

“O público mais jovem (25 a 50 anos) que conhece outras realidades fora de Portugal tem mais facilidade em aceitar os cafés de especialidade. O típico português por outro lado é um consumidor super conservador, averso à mudança. Todo o português pensa que é um expert em café, no entanto não tem qualquer conhecimento de café. Como está habituado a beber café muito torrado, sabor amargo, a queimado, e com muito crema, assume que isso é que é café.”

Portanto para além da constante educação do consumidor com relação à “nova” apresentação da segunda bebida mais consumida no mundo, o mercado dos cafés de especialidade tem também um outro desafio: fazer dinheiro. 

“Infelizmente é um mercado de nicho e uma constante luta em explicar porquê mais caro. E como não há volume, não há muito lucro.” – acrescenta Diogo. 

Para estrear no mundo dos cafés de especialidade

 Se você quer começar no mundo dos cafés de especialidade e não sabe por onde começar perguntamos ao Diogo quais são suas dicas:

“Procure vários torradores, tente provar de vários e não só de um. Se vem de café comercial (aqueles que vendem no mercado) comecem por provar umas blends, e depois passar para single origins. Se querem espressos procurem em cafeterias (coffee shops), o investimento necessário para obter um espresso decente em casa não compensa. Em casa façam café de filtro, um equipamento super básico como V60 ou french press é fácil. Adquirir um moinho é essencial, pois o café só deve ser moído antes de ser extraído, para obtermos o máximo de sabores.”


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